sexta-feira, 30 de outubro de 2009

um depoimento ou um suspiro (daqueles que a gente tem quando falta o ar)


meu tempo é ocupado para que eu não enlouqueça
ficar sozinho tem sido um risco
então invento mil ocupações

hoje tive um dia demasiado triste, desocupado

a alegria da festa já não me anima mais
todas essas pessoas que estão me olhando
depõem contra mim

se eu tivesse enlouquecido
não precisaria me ocupar em escrever poema fajuto
enquanto espero a febre do amor passar
mais uma vez

sexta-feira, 8 de maio de 2009

parei porque o telefone publico estava a tocar, mas não tinha a intenção de atendê-lo

o menino rodopia, olha de esgueio
ele espia e foge da mira
surge como ameaça para alguém
como trapaça para outrem
mas ele é só um menino e chora quando tem medo
pede uma moeda e ganha um afago
vai embora sorrindo, remelento e fedido
sabe-se lá para onde
o menino se diverte com o brinquedo
e faz desenhos lindos
o menino se estica todo para alcançar aquela carteira
e usa um remédio qualquer que o faz sentir-se bem à noite
o menino transa sem camisinha
e não sabe amarrar o tênis
não sabe escrever o nome
só mente quando necessário
e pede um cigaro pro tiozinho que vai passando
o menino leva tapa da polícia
vai parar no hospital
dorme num cantinho, ali, perto da igreja
e é visado pelo Estado
ele rodopia, olha de esgueio
e torce pro corinthians quando tem futebol
aquele calção que ele está usando era meu, mas ele não sabe disso

quarta-feira, 1 de abril de 2009

o anjo disse amém

escolhi como par o imundo, o vagabundo, aquela puta desgraçada
escolhi como par o marginal e toda a sua corja
escolhi como par o doente e o carente
e hoje me sinto na companhia de uma solidão desconfortável
sinto-me imundo, vagabundo, um puto desgraçado
sinto-me marginal cercado por uma corja de covardes
sinto-me doente e carente
e ninguém veio pra me carregar no colo

quinta-feira, 26 de março de 2009

desconhecido

tenho me sentido cada vez menos inteligente
cada vez menos esperto
cada vez menos

tenho me sentido cada vez mais ignorante
cada vez mais distraído
cada vez mais

acho que já está chegando a hora de saber quem eu sou
_

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

quitanda

Aqui tem samba
e tem até o Tom

Aqui tem seleção de rocks
Caetano e os Mutantes
tem Gal, tem coisas de antes

Aqui tem violão
e tem até o Jorge
Ben
Aqui tem seleção de raps
Tim Maia e Racionais
tem Bezerra, tem questões sociais

domingo, 25 de janeiro de 2009

oferta

O que o mundo me oferece
é diferente do que oferece aos meus iguais

ou não

Já disseram por aí que o verbo é:
"ESCOLHER"

Eu prefiro amar
e sentir
mesmo que haja dor

Porque o que o mundo me oferece
eu quero repartir

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

"o namorado da viúva passou por aqui"

Quando o som do baixo marca a música
o coração bate descompassado
Quando a música pára
por um segundo não sei quem sou
e, quando a música volta, recordo do meu lugar

Quando a batida se soprepõe à melodia
perco a noção das horas
Sinto-me em meio a uma miscigenação
movida por luzes coloridas
e esqueço qual é a minha cor
torno-me descendente da noite

Quando sobra só um violãzinho
eu sou Jorge Ben
Carrego comigo uma história tropical
(e um jeito meio filósofo, meio periférico,
meio marginal toma conta de mim)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

menino velho


agora eu sou maluco do beco
e, você, não insista, por favor
que não falo meu nome
sou zona urbana sem tapume
ônibus articulado bicolor

agora eu sou contra lei seca
e, você, não me toque, por favor
que não fui feito para examinar
sou asfalto novo sob pé descalço
cerveja quente em dia de calor

agora eu sou filho de preto
e, você, não fale alto, por favor
que não gosto de imposição
sou batida de rap em casa de pobre
coro transformado em tambor

agora eu sou quem incomoda
e, você, não comece a julgar, por favor
que não aceito preconceito
sou poste com fio de alta tensão
perfume estragado de forte odor

agora eu sou artista de rua
e, você, não se importe, por favor
que não falo muito sério
sou letra de bêbado na madrugada
menino velho cheio de amor

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

cisco

eu quero me sujar, também
e sentir frio e fome e sono, tudo ao mesmo tempo
só pra não julgar
pra fazer parte
e entender de verdade
eu quero ficar feio
e ter nojo do meu próprio cheiro
eu quero nascer sem vínculo
com os pés no chão
eu quero nascer na rua
e escolher minha própria família
eu quero experimentar todos os remédios que aliviam
quero ter contato com todas as formas de sublimação da dor
quero comer do lixo
ser chamado de bicho
como na bandeira do Manuel

e esse cisco no meu olho não pára de coçar

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

cordialidade

já cansei de tanta cordialidade
a gente faz de conta que está tudo bem
só pra alegrar a outrem

chegou a hora da verdade
é, vou bater panela e acender rojão
apesar da cara, eu não sou palhaço, não!

não vou sorrir só porque você quer
sorrirei quando tiver vontade
isso, para mim, é que é a liberdade

já cansei, cansei de ser tão cordial
agora serei mais eu, quero amor de verdade
agora serei mais você, desde que haja sinceridade